sexta-feira, 15 de julho de 2011

Long Play

Corríamos todos juntos em cima do grande LP veloz, éramos quarenta, cada um com a sua história particular metade sóbria metade luminosa, procurávamos apenas um ponto de descanso (mas só quando chegasse a hora). A agulha riscante não ameaçava ninguém, era só questão de desviar no momento oportuno. Sei que os speakers davam sentido à corrida, porque não saíamos do lugar, e o ritmo suficientemente cativante alimentava nossa identidade de tijolos fortes prontos para qualquer vento. E em algumas pequenas canções eu pensava inclusive que não precisava de mais nada além daquele exercício contínuo. A perfeição dos sulcos trabalhados de forma enigmática por alguma indústria impessoal tinha um quê de grandiosidade inédita, todo mundo percebia isso na época. Um disco opaco genial no espaço autoflutuante das diferentes proporções do entendimento humano de si mesmo.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Horta

Na manhã seguinte eu acordei sem saber direito onde estava, mas fui lembrado pelos raios de sol que entravam em diagonal pela janela. Saí por ali mesmo, porque fazia um calor de verão absurdo e confortante, enrolado no lençol branco. Uns porcos, e talvez umas galinhas também, todos me deram bom dia e não estavam de brincadeira. A grama pode ser bem macia às vezes, e mesmo as pedrinhas que se fazem sentir embaixo da sola ainda não acordada dos seus pés têm o poder de te mostrar o gosto da vida quando você deixa. Além de um varal com umas poucas roupas penduradas, a promessa de uma horta com alfaces suculentos e prontos era tudo o que se via nesses primeiros segundos de caminhada. Fui contornando a casa, que afinal tinha a sua estrutura reforçada com grandes vigas de madeira que eu não tinha reparado antes, sempre andando por uma calçadinha simpática – o habitat das formigas caseiras do planeta Terra. A porta da frente estava aberta, e a cerca também. É bem a hora em que se percebe, mas sem indignação, a tirania sacana dos relógios e a eventual diferença de segundos e minutos para frente ou para trás que não significa absolutamente nada quando se adentra no reino das possibilidades do presente ou da onipresente sensação de um dia de cada vez.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Pepitas

Não era a primeira vez que seguia a pé no acostamento, só que ali eu estava sem um mísero certavo, sem mochila e com a camisa rasgada. Não havia muito o que fazer a respeito. Cortinas de ar quente abriam e fechavam à minha volta, enquanto Mercedes voavam em dimensões sobressalentes e quase extraterrestres e um pássaro assistia a tudo sem piscar. Eu não queria pedia carona porque não estava com a menor vontade de falar com ninguém, mas a verdade é que não fazia nenhuma questão de chegar a algum lugar tão cedo. Porém quis o destino e a natureza labiríntica das coisas que eu encontrasse um ponto de ônibus interestadual, com uma bela cadeira de plástico laranja brilhante e vazia. Encostei ali um instante e só depois percebi a presença de um camarada de boné que fumava um cigarro e levava o próximo preso na parte de cima da orelha. Era questão de tempo para ele puxar assunto, me perguntou sobre o resultado do jogo. “3 a 1”, inventei, e ele pareceu satisfeito, riu um pouco e disse que já esperava. Logo me vi conversando com entusiasmo sobre um jogo que não fazia ideia do que era, e até nos desentendemos um pouco, porque afinal o Dante era mesmo uma lesma e o técnico Almeidinha não tinha culhões para fazer valer sua opinião. Nos despedimos e ele pegou o expresso para São Vicente junto com todos os outros. Catei umas pedrinhas por ali pensando que se vivesse no século XVII elas podiam muito bem ser pepitas de ouro.