terça-feira, 30 de junho de 2009

Calendário

Cada vez que eu me lembro de como pode ser bom, talvez melhore ainda mais. Você pode até não achar, mas a carta que eu li foi a mesma que eu escrevi. Só mudaram as letras, as palavras e os sentidos. Assisti ao filme, comi um sanduíche, joguei futebol. Dentro de poucos dias, o calor do sol virou um calendário com uma foto sua. Dali para a frente, mudava todo mês. Em dezembro, a foto era uma paisagem plana e divertida, com eco e sem fim.

Saco plástico

Semana passada eu conheci um daqueles sacos plásticos que circulam entre edifícios ou seguem caminhões, ou que, mais raramente, levam a um estalo na imaginação. Ele não respondeu nenhuma das vinte perguntas que eu fiz, simplesmente porque eu não perguntei direito. Segundo ele, claro. Corri na frente e ele sumiu.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Armazém

Um armazém vende latas vazias, fechadas, como se não fossem vazias. Mas o balconista não sabe. Um dia, o cliente exige que o balconista abra uma das latas, porque desconfia. O balconista se recusa e os dois começam a brigar. O cliente pega uma das latas e joga na cabeça do balconista, que começa a gritar. A lata se abre. Não há nada dentro. O balconista pede desculpas, apesar da dor de cabeça. O peso da lata é igual ao de todas as outras. O balconista pesou. “Todas estão vazias?”, pergunta o cliente. “Acho que sim”, responde o balconista. “Vou levar sete”, retrucou o cliente, com grande satisfação.

Manual de Instruções 2.0 (Capa)

A vida é uma só.

domingo, 28 de junho de 2009

Azul Marinho

Um rosto que mergulha em sereno triste, a nuvem azul marinho em sombra. A menina com os olhos brilhantes transcende o abraço subconsciente. O olhar dela é o que me faz chorar por dentro. Não há lágrimas suficientes para igualar aquelas que apenas emolduram as beiradas dos olhos. Rosto bronzeado, um passado tão presente que mal se nota a diferença. Sem licença, é ali mesmo. Se chove, é a gravidade quem manda.

Manual de Instruções

Para entender o que diz o aviso na placa. Vire-a de cabeça para baixo, leia de trás para frente, de cima para baixo, da direita para a esquerda, enquanto assobia o hino da Hungria em fá menor. Depois, assobie em mi menor. Se ainda assim não entendeu, assobie em lá sustenido com sétima.

sábado, 27 de junho de 2009

Descanso no gramado sob a sombra da árvore

Jogaram umas pedrinhas no chão à minha frente, mas nem vi quem eram, ou o que queriam, pois estava absorto demais nos meus pensamentos. Quando finalmente olhei, não tinha mais ninguém lá, e resolvi levantar.

Pedágio

Dois terços das pessoas no mundo nem sequer percebem que a estrada está engarrafada. O terço restante fica buzinando.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Praia

A saia vermelha voltou ao joelho, e o vermelho do tecido, em busca do tido como essencial, apareceu. Fui ao seu encontro, confronto aberto e alma despreparada. A linda menina de olhos azuis se desfez como a fina camada adocicada de seus vinte anos completos. A nuvem choveu umas duas semanas. Em uma manhã seguinte, o lençol e parte do sol se juntavam com uma maçã. E balançavam os pés, o casal, em êxtase total, mesmo assim, se refez e alinhou a vista, sem perceber a pista de alta velocidade.

Oportunidade

O vento foi a melhor tentativa que o ar podia ter feito.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Dez centavos

Onde está a minha moeda de dez centavos? Tenho certeza de que a coloquei no bolso furado da calça jeans de ontem. Tenho tanta certeza que nem chequei se o bolso estava realmente furado. Talvez não estivesse, e aí a moeda ainda estaria lá. Onde está minha calça jeans?

Os Grandes e os Pequenos

Jaime, o Triste, estava me contando a seguinte história: “Colosso e o Gigante de Frestal eram inimigos mortais. Certo dia resolveram finalmente resolver suas diferenças em um jogo de dardos na Grande Parede do Ocidente, onde desenharam um alvo com caneta de CD vermelha. Ao saber do confronto, o representante da União dos Vilarejos Minúsculos conseguiu uma audiência e pediu formalmente que se desenhasse um alvo igual do outro lado da parede, na mesma posição, e que os gigantes se dispusessem em lados opostos, e também que fizessem um buraco no meio do alvo para que, quem acertasse exatamente ali, ferisse mortalmente o outro. Todos aprovaram a ideia e isso foi feito. Colosso quis dar uma de esperto e jogou o dardo com toda força antes que o apito soasse. O Gigante de Frestal também quis dar uma de esperto e fez o mesmo, no mesmo momento. O meio do alvo não foi atingido, mas a Grande Parede foi, e ela ruiu inteira, destruindo os Vilarejos Minúsculos. Os brutamontes riram do acontecido e foram almoçar.”

Faísca

Quem viu a faísca foi você. Eu vi só o reflexo nos seus olhos.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Um, dois, três

Às vezes a carreta passa devagar. É mesmo um dia de cada vez, ela diz. Relembrando os revezes ensimesmados, as pessoas correm três vezes por dia, pelo menos. Correr é chover, melhor molhar do que mendigar pelo pão de amanhã. Mas sempre que o dia acaba, começa o dia de novo, ou quase sempre, ou sempre quase. Só termina quando o começo reclama. E aí, é recomeço.

Trailer

O peixe se viu dentro de um aquário de proporções absurdas.
Sua única referência era uma colher.

Locomotiva

O trem de ontem já partiu. E eu estava nele, mas não estou mais, porque já é hoje, e eu agora estou no trem de hoje. Agora eu sei quem fui. Fui um sujeito que entrou no trem de ontem, e, ainda assim, fui enganado. Ontem ninguém me disse que hoje eu estaria no trem de hoje. Tinham me garantido ontem que hoje eu estaria no trem de amanhã. De qualquer maneira, penso eu, amanhã estarei no trem de amanhã.

Ataque das Raposas

Do alto da montanha, eu vi a sombra do mundo. No fundo do céu, um ponto. O véu de nuvens desenhou um percurso que segui com a respiração calma. Quando voltei a cabeça para cima, o céu estava cinza escuro, e um time de raposas arriscava o primeiro ataque. O dia era um rascunho, pois rascunhos são o início, o real tinha mesmo que ser a noite. Não a noite dos insones, mas o fim de tarde dos esperançosos.