domingo, 30 de agosto de 2009

Lápis

O poeta é complicado porque faz do complicado simples, mesmo sabendo que o simples é complicado.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Textura

"Nunca desistir de nenhum intervalo de tempo, por menor que ele seja", pensou o jovem grão de areia.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Totem

Existe um momento no dia em que nada parece fazer sentido. É logo depois do almoço, quando você está sentado no topo do moinho, com dez pedras preciosas em volta da cabeça, e, enquanto um pássaro voa dentro do seu dedão do pé, uma mulher cai de cima da fábrica de chinelos sobre você.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Koro

Pesquisando etnocentrismo na biblioteca descobri uma civilização ancestral cujos indivíduos valorizavam muito cada bocejo que davam, pois significava um forte sinal de abundância. Eles terminavam o gesto gritando a expressão de origem desconhecida “Koro” (pronuncia-se Kóro).

domingo, 23 de agosto de 2009

10, 9, 8...

Realmente a respiração é um movimento involuntário até certo ponto, e nada pega fogo se não houver um pouco de ar por perto. Você sabe muito bem que estou até agora esperando o incêndio, então não me decepcione, ok?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Rio de Setembro

Tirei toda a roupa e olhei para o rio, antes de ter certeza de que poderia atravessar sem problemas. Mas quando entrei naquela água tranquila e veloz, cheia de cristais incrivelmente invisíveis, achei que era hora de relaxar, porque a caminhada não passa de uma média aritmética e não seria esse o motivo de um atraso qualquer. Fiquei ali na pedra molhada fundamental onde todos os seres vivos ou brutos já tinham deitado de alguma forma e os sons em Dolby-surround orgânico cuidaram de me providenciar uma total satisfação. Entre os sapos, com sua sabedoria de matéria verde-escura, que vieram e me disseram que atravessar um rio de um lado a outro é um desafio legal, mas que eu considerasse a possibilidade de me deixar levar pela correnteza.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Ir e vir

Cheguei na prefeitura por volta das sete e meia, mas não descalcei os sapatos como pedia o aviso. Entrei com toda a lama que trazia da rua, que afinal era a lama dos dignos e era limpa e feliz. A secretária disse que eu podia esperar até o Dia de São Nunca, mas disse isso de uma forma simpática e até dedicada, porque acreditava realmente que esse dia fosse chegar – na realidade acho que tinha a data marcada no calendário em cima de sua mesa lotada de porta-retratos e canetas de todas as cores, um monte de justificativas que ela tinha para sua existência quase duvidosa. Como havia outra alternativa (sempre há), resolvi sair, ir embora – e ao passar pela porta, deixei lá dentro os sapatos, que afinal estavam sujos de indiferença. Saí descalço pela rua, pulando de poça em poça. A ideia é voltar, mas não sei ainda quando.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Consulta espontânea (caiu na beira da praia e abriu)

- Agradeça ao universo e logo você saberá então por que está agradecendo.

domingo, 16 de agosto de 2009

Floresta

As armadilhas vieram, e os monstros, nessa ordem.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O mar e os sinos

Eu mesmo me pego terminando um pensamento só para começar outro, em vez de deixar ele seguir seu próprio curso e desaguar no mar. Muitos têm medo do mar. O que se pode fazer neste caso é ouvir os sinos ao meio-dia e imaginar que cada badalada representa um desejo, mas que o conjunto sinfônico é um sonho importante, e aí o que tem o mar a ver com tudo isso? Tem a ver que se dermos importância exagerada aos sinos, não conseguimos ouvir o mar e esquecemos onde ele fica.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Padaria às 5

Dias de fermento e dias de forno. Ornamentos em pias molhadas, esperando o pão que há de vir. E se for assim, quase todos seremos postos em fila, moldando rostos sem expressão. Todos procuramos algo, ou então fugimos até o limite da aparência, para longe de casa. Marte é o nosso planeta.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Herói

É quando vem aquela sensação desagradável de que por falta de experiência de vida somos obrigados a deixar passar oportunidades, mas isso aí é história de quem olha para o passado e confunde oportunidade perdida com o que na realidade era em si a própria experiência de vida. Não tem problema, mesmo os heróis de cem olhos eram obrigados e fechar pelo menos dois para dormir.

domingo, 9 de agosto de 2009

Peso extra

Robustas montanhas do sul de TrenCoeur se alinharam para receber os viajantes que há cento e poucos dias não comiam uma refeição decente, pois tinham que se preocupar 24 horas com os germes de toda uma nação decomposta por anos de descaso. Os quatro andarilhos seguiam um atrás do outro e eram um velho e três jovens, todos com mochilas pequenas e grandes, varas de pescar e toucas de banho, sacos plásticos de toda espécie e coisas que ninguém em sã consciência planejaria levar para a estrada (não sem fazer cerimônia, seguida de aceitação geral, ou de uma maioria respeitável, em suas opiniões), e que agora estavam guardadas e bem guardadas, porque eram relíquias, ou talvez até tesouros se olhadas de perto: vasos de plantas ainda nascendo, sementes de girassol com cheiro de verão, tatuagens e receitas de feijão fradinho supertemperado, entre outros objetos que nenhum deles sequer cogitou devolver para a selva da falta de sentido, mesmo com todo o peso extra em suas costas.

sábado, 8 de agosto de 2009

Perguntas

E pronto, se me perguntassem o quanto eu ainda gostaria de saber o que se passa na cabeça das pessoas, eu diria que muito, mas nem tanto quanto antes. Porque agora a vontade que eu tenho é de interagir e não mais controlar por completo toda a sorte de equipamentos da natureza. Se me perguntassem o que eu vejo; eu diria que enxergo apenas até as minhas pálpebras desfocadas e isso me incomoda um pouco, o bastante para abrir os olhos e tentar imaginar o amarelo e o azul e tentar distingui-los de vez em quando. Se me perguntassem o que ouço – não sei bem o que diria, porque provavelmente ignoraria a pergunta até que me fosse perguntado de outra forma menos clara, ou talvez eu conseguisse responder escrevendo alguns dias depois. Pedreiras caem a todo instante e é isso que me interessa agora, principalmente pelo fato de não estar embaixo delas, mas às vezes estou e é uma baita de uma experiência! E mais: os crocodilos dos programas da Discovery estão totalmente fora de escala e ninguém percebe, a não ser o meu mecanismo de sonhos.