sábado, 31 de outubro de 2009

Capítulo XIX - Automobilismo

O tempo é um carro sem motorista em alta velocidade. Ou você pula dentro e assume o volante, ou ele te atropela na estrada.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Nuvens

Nuvens.

A areia nas costas começou a coçar. Levantei devagar, em velocidade constante. Liberdade? Se é que ela existe, existiu ali, naquele instante, em níveis sinceramente atordoantes. A mente vazia, o peito queimado de sol, os pés descalços. Não sabia nem o meu próprio nome. Não me lembrava nem do meu próprio rosto. Não...

Os músculos me doíam como se tivesse tomado uma surra. Mas não uma surra de alguém. Uma surra do mundo.

Já era depois do meio-dia. Pus-me de pé e olhei em volta. Algo como um deserto marrom se arrastava até o horizonte circular. Andei uns metros, sem sair do lugar, deixando a minha calça jeans cerca de cinco minutos mais velha. Ouvi um zunido que a princípio achei que estivesse vindo de dentro de mim. Mas vinha de lá adiante, o bicho grunhindo fumaça. Um imenso caminhão atravessou a precisa linha entre o esquerdo e o direito. Tinha uma estrada ali.

Corri tanto que me esqueci do que tinha que me lembrar. Só lembrei quando cheguei perto do asfalto. Lembrei que tinha que lembrar, mas tentei e não me lembrei de nada. O caminhão zunia além da vista. A pista, esta voltou ao seu silêncio natural, e eu, igual. O vento arrumou meu cabelo comprido para o sentido do caminhão zunido. Olhei pro lado oposto, em vão, pelo menos até então.

O vento, aliás, foi e voltou pelo deserto, tentando me mostrar alguma coisa invisível. Pelo menos foi a impressão que tive. "Não há declives, não há ação, nem medo, nem passado", pensei. "Só presente, por enquanto. E futuro, espero, no entanto."

Cansei de esperar e fui caminhando pelo acostamento, seguindo o espaço-tempo do caminhão, e deixei pegadas imperceptíveis na terra quente e bruta, quase propositalmente. De vez em quando olhava para trás, só pra não confirmar nada. Tanto chão e tanto céu, para esses dois eu não fazia a menor diferença. Para a estrada, talvez. Por isso continuei fiel a ela, em vez de ir na vertical ou ficar parado. Apesar de tudo, ou de nada, sentia-me bem. O silêncio só incomoda quando não é tão silêncio assim.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Jornada

O timing não podia ser mais perfeito: seis semanas de olhos vermelhos, três dedos de água gelada em um copo de latão, uma tempestade incrível, uma noite tranquila como poucas, uma parede de tijolos, um sol puro de alcançar o pulmão.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Zen

O essencial não é dizer o que quer, mas dizer o que vem.
Porque uma hora vem o que quer, e é o único jeito.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Capítulo XXVIII - Ciclismo

Liberdade é o equilíbrio em movimento.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Déjà vu

O grande efeito não foi tampouco repentino. Primeiro apareceram os créditos e a música, depois veio o clímax, depois a crise, a bagunça, e em seguida o meio-de-campo, um ou outro impedido com razão. As coisas foram ficando tão simples que pareciam feitas de gelo. Os personagens não se conheciam de modo algum; os eventos eram óbvios, ingênuos e pertinentes demais. O primeiro ato teve gosto de purê de batata crua. O bandido sumiu como se nunca houvesse existido. O xerife e a princesa se beijaram ao entardecer e se desencontraram. Por fim, o xerife se viu sozinho. E foi aí que tudo começou.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Fio

Encontrei um camarada gente fina chamado Horácio, que depois de ouvir os cantos tristes das corujas acendeu uma fogueira e preparou seu jantar em uma panela de ferro, enquanto falou: “Tinha aquele fio de náilon que amarrava o parapeito de uma janela no décimo andar de um edifício de escritórios ao dedo polegar de um gárgula pequeno no topo do Museu. O fio não podia ser visto da rua, e ninguém se importava com ele, até porque era um fio inusitado e praticamente invisível mesmo, dezenas de graus abaixo dos cabos de energia elétrica na escala de utilidade geral. Mas teve um dia em que um piano voou de algum ponto e se agarrou no fio, e ficou parado como se fosse ali o seu lugar. Durante um bom tempo as pessoas pararam na rua e olharam para cima, e apontavam, e perguntavam, e imaginavam, e se interessavam: ‘Um piano flutuante!’ Aí o piano se esqueceu do fio e acreditou que realmente flutuava, se encheu tanto de orgulho que ficou pesado demais, se desquilibrou e pousou no asfalto, voltando a ser um piano como outro qualquer. Ninguém se decepcionou de verdade (com a exceção talvez do pequeno gárgula).” Acho que peguei no sono um pouco antes de ouvir o final.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Building Bridges

Muitos momentos são apenas momentos, mas alguns são estrofes, e outros refrões. Músicas tocam por toda parte, e é bem fácil não perceber que várias delas são na verdade apenas uma. Uma canção incrível o bastante para a gente reconhecer mesmo sem ter ouvido antes: um pastel de queijo, uma fotografia, um guarda-sol. O importante é aproveitar as coincidências, porque elas dificilmente acontecem por acaso.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Pensamento

- Você está pensando em alguma coisa, não é?
- Sempre estamos pensando em alguma coisa.
- Digo, sobre alguma coisa que eu disse.
- Não.
- Acho que sei no que você está pensando.
- Não, não sabe.
- Então fala.
- Cortes de cabelo e TV a cabo.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O papel dentro da garrafa verde nas ondas

“Eu não sei nada. Talvez eu saiba que as coisas flutuam, talvez eu saiba isso. Mas mesmo assim, de que me adianta? Se eu estou aqui quando você está ali, e depois o mundo gira, passa um dia, passa um ano, tudo volta a ser o que era - só que totalmente complicado -, e aí a gente se pergunta, sempre com cara de zebra correndo atrás das grades na velocidade da luz: ‘Ok, mas agora eu posso então?’ A resposta voa, sempre acima das nuvens, sempre planando e se entretendo com as próprias asas. Mas temos que continuar tentando, primeiro porque sim; e claro que também porque, no fim das contas, a conta fecha. Se eu imaginava que o futuro seria o passado que eu não vivi, agora percebo que é um presente que eu preciso viver, e é bom começar então.”

sábado, 3 de outubro de 2009

Fusão

Energia a partir de duas partículas que colidem.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Dois de Copas

- Quantos tempos existem aqui?
- Apenas dois.
- Por quê?
- Porque somos dois aqui.
- Hum. E se fôssemos mais que dois?
- Daí a coisa seria diferente.
- A coisa é diferente!
- Então fala a verdade.
- A verdade fala por si só.
- Ah, é? E o que ela diz?
- Não faço a menor idéia. O que você acha?
- Sei lá. A verdade é relativa.
- Verdade.
- É.