domingo, 29 de novembro de 2009

120Km/h

Fiz ligação direta e parti, com o carro sem capota mesmo - e apesar de no início não levar muita fé na história toda, resolvi confiar no motorista e não me arrependi.

domingo, 15 de novembro de 2009

Multiverso

E aí, os pensamentos, tantas nuvens e tantos ares, tantos rios e tantos mares, todos se dispuseram em quebra-cabeças longilíneos e cheios de armadilhas. Nada parecia certo, se visto de perto. Como as ilhas de segredos recém-descobertos, paradas obrigatórias para barcos perdidos de propósito. Os náufragos, estes se escondiam em suas palmeiras, prontos para sumirem de vez. As ondas iam, vinham, voltavam e só.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

1

- Pode me dizer o que está acontecendo, Dois?
- Do que você está falando?

Um
estava longe de saber ao certo. Afinal, nunca percebera nada realmente estranho em toda sua vida, e portanto não esperava definir o sentimento assim, sem mais nem menos. Observou os outros e constatou que ninguém compartilhava de sua angústia, apesar de Dois ter se tornado levemente preocupado depois do súbito questionamento. Três e Quatro permaneciam em posição padrão, aqueles burocratas com experiência e equilíbrio suficientes para aguentar o peso de muitos 'Por quês' e incontáveis 'Mas es'. Não se deu ao trabalho. Olhou para Seis, o velho fanfarrão pretenso dono da verdade, que às vezes o era de fato.

- ?
- Somos todos o mesmo. – respondeu o ancião.
- O que isso quer dizer?
- Nada.
- Nada? – insistiu Um.
- Nada, e mesmo que você ache que você pode fazer alguma diferença, isso não faz a menor diferença, não mesmo.

Dois
foi ficando inquieto ao lado de Um; este percebeu e decidiu aproveitar a oportunidade para puxar assunto.

- Você é feliz?
- Às vezes. Como assim? Você deveria saber essa. – finalizou Dois, sem convicção.

Todos permaneceram em silêncio por alguns minutos. Mas Um não estava com a menor paciência para o vazio. Olhou novamente para Dois, e entendeu que o colega dormia tranquilamente, e sonhava. Quatro acabou seu expediente ininteligível e pegou no sono. Por consequência, Seis não teve alternativa a não ser descansar também.

- Ei, garoto! - Três, por sua vez, mais bravo do que nunca, berrou na direção de Um. - Volte enquanto pode! As coisas não são como você está imaginando!

Um ficou confuso, mas não respondeu. Em vez disso, viu Cinco, o desconhecido até então mudo, que apenas sorriu.

E quando Três viu também o sorriso de Cinco, calou-se, e isso acordou Dois, que acordou Quatro, que acordou Seis. E todos assistiram à conversa, que foi algo parecido com isto:

- Eu sou você? – perguntou Um.
- Sim. – respondeu Cinco.
- Por quê?
- Porque tudo é eco.
- Inclusive isso?
- Inclusive isso. (?)
- Quem disse?
- Você.
- Eu posso mudar o mundo?
- Não, mas eu posso.
- E o que eu posso fazer então?
- Qualquer coisa, jovem. Qualquer coisa.

O dado girou, e girou, e girou.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Albatroz

Do resultado se deduz que albatrozes de verdade dependem menos do ar do que de uns dos outros para voar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Batalha Grande

Enfim, os sete anciãos empunharam suas armas na torre de observação do palácio. Olhando do meu balão, percebi que definitivamente estavam em formação de emergência, os portões não aguentavam mais a pressão da horda de bárbaros. Mas não eram bárbaros comuns, e sim homens vestidos com ternos sujos e gravatas amassadas, alguns seguravam maletas de executivo de onde caíam papeis, e eram milhares.

Sobrevoei por trás para ter uma visão mais estratégica do cenário, mas o balão foi atingido em cheio por um tiro. Fui caindo, caindo, até que resolvi fazer um pouso forçado no monte de feno da fazenda dos arredores.

A vontade de saber sobre a batalha foi bem maior do que o impacto da queda, e quando me dei por conta, já estava guardando o balão na enorme cesta que constituía sua nave – ela tinha uma tampa, que fechei. Um homem com cara de raposa apareceu com uma sacola – não era o dono da fazenda, me assegurou – e me perguntou se eu tinha alguma mercadoria para vender: no início achei que era um ladrão, e, bem, talvez fosse mesmo.

- Tenho apenas este balão.
- Vejo apenas uma cesta.
- Mas tem um balão aqui dentro, pode conferir! - retruquei.
- Não! - gritou o homem. - Como vou saber que você não tem uma armadilha montada dentro?
- Ora, como assim?
- Vamos fazer o seguinte. Troco esta sacola pela sua cesta fechada.
- Mas o que tem aí?
- E você acha que vou dizer? Fechamos negócio ou não?

Eu queria mesmo era ir olhar a batalha de perto, e aquele cara de raposa estava começando a me perturbar.

- Está bem.

O homem pegou a cesta com facilidade e saiu correndo pela fazenda, mas não o vi abri-la, pelo menos até onde consegui enxergar. De dentro da sacola, tirei um belo terno, uma gravata e uma brilhante maleta de executivo.

sábado, 7 de novembro de 2009

Cair e andar

O bebê na varanda da casa de barro andava, caía e depois levantava, e não tinha medo de cair de novo. Só que caía. E levantava. E não tinha medo de cair de novo. Mas caía. Depois levantava, e andava. E desequilibrava, e sorria. E caía. E não tinha medo de levantar de novo. E sempre sorria, mesmo quando caía, e sempre caía, mesmo quando andava, e por isso mesmo. Mas não apenas isso. Caía, e andava, e por isso seguia. E quando seguia, parava e sorria, mas só por um instante. Depois continuava e caía, mas levantava. E assim ele ia. Caía e andava. Andava e caía. E foi por isso que, a partir de um determinado dia, o bebê nunca mais caiu de novo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Dois de ouros

- Você tá brilhando!
- Culpa sua. E minha também, claro.
- E quando foi isso?
- De manhã, quando a gente acordou.
- O sol?
- Acho que o sol aprendeu muito com a gente hoje.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Be-in

No drive-in o casal chegou e assistiu ao filme, que era nada menos do que um clássico. Capô aberto e calor da noite. Tem set mais propício?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Chuva de verão

A rua parecia ter virado novamente do avesso - tenho absoluta certeza de que não pedia, mas as pessoas continuavam me jogando moedas de um centavo com sorrisos estampados em suas nucas. Larguei a carroça e fui correndo pela praça como um menino que quer cantar uma velha canção do Leonard Cohen e não tem quem ouça. Começou a chover muito, muito mesmo. Percebi um céu azul e brilhante, só que ninguém reparava no absurdo porque estavam cegos por seus guarda-chuvas. Aí fiquei feliz de repente e todos entenderam isso, e pararam de me jogar o que quer que fosse. A mulher tinha visto de relance o azul refletido nos meus olhos (a chuva também aumentou mais ainda etc). Cheguei em casa dois dias depois, exausto, e reguei uma planta, agradecido.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Escadas

Então eu aprendi que, por mais altos que sejam, todos os prédios têm escadas, mas poucos indivíduos as utilizam, a não ser aqueles que vão para o segundo ou terceiro andar, e ainda assim, chutando o ar e usando o combustível altamente poluente da impaciência aditivada, como que para punir os próprios elevadores e as pessoas que os esperam calmamente. Mesmo correndo o risco de encontrar os raivosos no início do edifício, e mesmo tendo que ir diariamente para o último andar, preferia os degraus. Depois de alguns lances, o caminho era tão barulhento quanto um lago congelado às cinco horas da manhã.