sexta-feira, 7 de maio de 2010

You Got to Walk That Lonesome Valley

O cigarro feito com o jornal de sábado, este eu apaguei no muro. Era a primeira vez que andava a pé por uma daquelas cidades que pareciam todas iguais, mas cuja distinção agora lembrava a dos grãos de arroz na cesta da quitanda. “Reles gorgeio, és tu um ovo de lombriga?”, ouvi um andarilho dizer para o outro, diálogo matinal belo e descartável. Segui pela Rua Estâncio Sozequin, ou Cozessim, oitenta metros em direção a uma padaria. O sol era o fazendeiro brigão que jogava seus cachorros no primeiro que resolvesse que as cercas eram de brincadeira, então pensei em forrar o estômago. “Sendo assim, quero um chá de acelga e pão com manteiga...”, e depois disso mais uns quarteirões. Parei num cruzamento de duas avenidas largas. O sinal estava vermelho para pedestres e um velho de cento e vinte anos que mal conseguia abrir os olhos descansava apoiado no poste.
- Já leu o cartaz? - Ele perguntou, sem olhar para mim.
- Quê?
- O cartaz. Entre a sua nuca e a sua testa.
- O senhor precisa de uma mão para atravessar a rua?
- Rua? – Ele hesitou por um instante.
- Essa aí. Vai para a cidade?
- Oh, não, meu amigo. Não vou para a cidade.
- Vai para onde?
- Não vou para lugar algum.
- Todos vão. Quero dizer, a algum lugar, eventualmente. Todos vão.
- Não, eu não.
- Bem, posso ficar aqui o dia inteiro para descobrir se isso é verdade, sabe? – Ri para uma audiência inexistente.
- Mas você vai. – Ele respondeu, ignorando meu ego.
- Vou?
- Para algum lugar. Por isso eu não vou.
- Não entendo.
- Vai entender. Eu mesmo só entendi há poucos minutos, quando você chegou.
- Eu vou para a cidade.
- É, eu sei. – Ele permanecia olhando para o chão.
O sinal abriu. O velho não se mexeu.
- Ei amigo, o sinal abriu.
- É o que diz o cartaz. Mas sei bem quem escreveu isso.
- Quem?
- Um mendigo que encontrei algumas ruas acima. Bem, não era um mendigo, afinal.
- Precisa de trocado para o ônibus? – Insisti.
- Não. Mas gostaria de pedir um favor, se fosse possível.
- Sim, claro.
- Pode levar um recado para um conhecido meu, que está a algumas ruas em frente?
- Ok.
O velho me entregou um papel amassado.
- Posso ler?
- Para quê, se foi você mesmo quem escreveu?
“Vá a algum lugar.”
E o sinal fechou de novo.