terça-feira, 12 de julho de 2011

Dois meses

Morar em uma carroça velha não é para qualquer um. Daí eu disse isso, e ela respondeu com um movimento lento de cabeça. Eu tinha trazido uma dúzia de ovos para o jantar e a lua estava precisa na metade, uma noite comum na estrada, clara e azul. Ouvi um uivo nas montanhas e coloquei a cabeça para fora para tentar ver alguma coisa, mas as árvores retorcidas apenas balançaram um pouco com a brisa independente. Duas horas depois resolvi catar umas frutas, achei uns maracujás e um poço, e voltei com o cantil cheio. Ela olhou com um certo desdém, mudando as estações do rádio sem prestar atenção. Lavei os pés e deitei na parte de cima, onde na semana anterior eu tinha amarrado um colchão de borracha, e bebi minha água ao ar livre. Tinha uma nuvem só, que fez todo o percurso desde o longínquo até o ponto em cima de mim, depois voltou, em seguida foi para a esquerda e sumiu nas montanhas. Aí reapareceu depois de um tempo quando eu já tinha esquecido dela, um pouco maior, parecia. Foi dividida em duas por alguma força supernatural e cada metade foi para um horizonte, deixando tudo completamente à mercê do brilho polido do satélite. Ela estava cozinhando alguma coisa.

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