terça-feira, 12 de julho de 2011

Pepitas

Não era a primeira vez que seguia a pé no acostamento, só que ali eu estava sem um mísero certavo, sem mochila e com a camisa rasgada. Não havia muito o que fazer a respeito. Cortinas de ar quente abriam e fechavam à minha volta, enquanto Mercedes voavam em dimensões sobressalentes e quase extraterrestres e um pássaro assistia a tudo sem piscar. Eu não queria pedia carona porque não estava com a menor vontade de falar com ninguém, mas a verdade é que não fazia nenhuma questão de chegar a algum lugar tão cedo. Porém quis o destino e a natureza labiríntica das coisas que eu encontrasse um ponto de ônibus interestadual, com uma bela cadeira de plástico laranja brilhante e vazia. Encostei ali um instante e só depois percebi a presença de um camarada de boné que fumava um cigarro e levava o próximo preso na parte de cima da orelha. Era questão de tempo para ele puxar assunto, me perguntou sobre o resultado do jogo. “3 a 1”, inventei, e ele pareceu satisfeito, riu um pouco e disse que já esperava. Logo me vi conversando com entusiasmo sobre um jogo que não fazia ideia do que era, e até nos desentendemos um pouco, porque afinal o Dante era mesmo uma lesma e o técnico Almeidinha não tinha culhões para fazer valer sua opinião. Nos despedimos e ele pegou o expresso para São Vicente junto com todos os outros. Catei umas pedrinhas por ali pensando que se vivesse no século XVII elas podiam muito bem ser pepitas de ouro.

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